Sunday, May 14, 2006

Os olhos azuis da virgem grávida

comprar o pão
matinal

diário pretexto
para petrificar
o pau do padeiro

angélica medusa
visagem voraz

A língua lilás da virgem grávida

nem zenão
nem platão

dentro da boca
sutil entre dentes
o segredo do mundo

se anuncia

A buceta vermelha da virgem grávida

diante do espelho o
pêlo pubiano a
fábula confabula:

papai foi pra roça
mamãe já vai chegar

Revista "Eu sei Tudo". Rio. Anos 1950.

Monday, May 08, 2006

Manhã de domingo (cheirando a sábado) após acordar ( ainda perfumado) de um profundo sono-boicote

a
noite
saiu

se
diver
tiu

e não me chamou

Tuesday, May 02, 2006

Insônia

o
travesseiro
novamente
cheio de
gafanhotos

Monday, May 01, 2006

Saboroso Drope Prateado

a bala é disparada
e em disparada
rasga o tempo o espaço
o extenso o curto percurso
que a separa de meu corpo

una, solitária, perdida

mortífera bala sabor hortelã
a derreter-se sobre minha língua

Um leitor Censurado

São dezenove horas. Noite quente de sábado. Entro no Centro de Convenções de Imperatriz com uma cartolina na mão. Nela, uma frase sintáticamente correta. A cartolina está dobrada. O Centro de Convenções, lotado. Acontece a III Semana Imperatrizense do Livro.

Um segurança se aproxima. Diz, kafkianamente:

- Você não pode permanecer aqui dentro. Acompanhe-me!

- Por que? - pergunto.

- Porque não! - responde.

Ato contínuo, segura-me pelo braço e chama outros seguranças. Os comparsas atendem o chamado. Arrastam-me no meio da multidão, em direção à saída. Grito, reivindico meus direitos constitucionais. Um policial chega, visivelmente alterado. Diz que me quer fora dali. Reluto e a situação fica mais embaraçosa. Uma mulher interrompe a leitura de um pequeno livro para observar a cena.

Dois imortais da AIL me socorrem, solidários. Livram-me momentâneamente dos truculentos seguranças. Ambos são organizadores do evento e me convidam a acompanhá-los, são e salvo, até a saída. Percebo que é a única maneira de preservar minha integridade física. A outra integridade -a moral- já fora por demais agredida. Aceito o convite, desde que não seja escoltado por policiais ou seguranças. A liberdade corporal é um triunfo para qualquer homem.

Já do lado de fora, encontro um grupo de manifestantes. Estão insastifeitos com a possível presença do oligarca José Sarney no encerramento da Semana do Livro. Gritam, empunham faixas e cartazes. Junto-me a eles. Engrosso o coro dos humildes e, em poucos minutos, também estou gritando: "Fora, Sarney! Fora, Sarney! Fora, Sarney!".

A polícia aparece. Não permite a nossa entrada no Centro de Convenções. Ameaça bater e prender. Clima tenso. Um oficial vocifera impropérios, parte para a intimidação. Cheiro de sangue no ar. Os "marimbondos de fogo" do Estado estão armados e prontos para qualquer combate. A imprensa? A imprensa foi complacente.

O tempo passa e o senhor feudal não aparece. Decerto foi avisado sobre o que o esperava. Pior para os seus vassalos: num misto de angústia e esperança, ainda olham para os relógios. Mas ele não veio. Não virá. Foi embora. Até a polícia já reduziu seu efetivo. Agora, apenas dois guardas permanecem a nos observar. Um deles coça os testículos e, em seguida, utilizando a mesma mão, enxuga o suor do rosto.

São vinte e três horas. Calmaria merecida que uma boa tempestade sempre exige. A III Semana Imperatrizense do Livro chega ao final com um bigode a menos. Dentro do Centro de Converções, um homem ainda tem tempo para comprar, soberbamente, quatro livros. Ao preencher o cheque de sessenta reais, exita: com dois "ésses" ou com "ç"?
Do lado de fora, permaneço dignamente barrado no baile. E ostento no peito, também dignamente, um cartaz onde se lê: "LEITOR É PROIBIDO DE VISITAR A SEMANA DO LIVRO". O homem que comprara livros passar por mim. Olha-me e pergunta o porquê do cartaz.

- Meu visto de leitor está temporariamente cassado - respondo.
P.S.: o texto acima seria origináriamente publicado em O Progresso. Cheguei a conseguir espaço para tanto, na coluna Manifestação Cultural, do meu amigo F. Aldebarã. No dia da publicação, entretanto, o editor do jornal vetou o texto. E disse Sarney: "Se não existissem os políticos, não existiriam os meios de comunicação".