Tuesday, January 02, 2007

Pra Nice

Debaixo de um bruto sol, mas na verdade desejando o "debaixo" de uma bruta chuva. Esqueci senhas e chaveiros e portas e casas. O sol é o meu carrasco diário. Todo dia um novo cadafalso. Cada dia mais em falso, ou melhor, infalso. Meu tio meio paralítico e todo paranóico e que já foi até que bem riquinho adorou a postura do Sandan diante da execução. Morreu como homem, sem medo. Eu acho que esse meu tio tem mais medo da morte do que eu. Dinheiro? O banco tem. Estou pensando em pegar mais 120 reais no meu CDC Salário. Tenho que garantir a cerveja do final de semana. Ai, meu Deus, ainda bem que existem os bancos. Agora chega que eu já não aguento mais este sol na cara. Vou entrar, fechar a porta bem fechada e bater uma punheta praquela cadela que comeu o biscoito que caiu da minha mão. Disse "bem fechada" porque estou com medo que minha mãe, meu irmão ou minha cunhada que já foi gostosa me flagrem novamente com a mão na massa, digo, no rolo. Um beijo no priquito.

Tuesday, November 07, 2006

BIZARROS, PROMÍSCUOS E MENTIROSOS

Eles não têm nenhuma vergonha na tara. Durante mais de um mês nos assediaram, duas vezes por dia, sussurrando promessas e prazeres dentro de cada rádio e televisão brasileiros. Na impossibilidade dos sedutores showmícios, percorreram conventos, bares e associações de pais e mestres à cata de eleitores. Enquanto durou o grande assédio eleitoreiro, estes cipós estranguladores camuflaram-se em arremedos musicais e retratos santificados. Na ânsia de deter um mandato, chuparam sangue, esterco e suor. No gran finale, ridentes eleitos, desabotoaram as calças, baixaram o zíper e nos obrigaram a engolir o líquido espesso da mentira.

No bizarro circo político brasileiro, os não menos bizarros marqueteiros surpreendem a cada pleito. Se outrora estes necrófilos apenas desenterravam defuntos, agora os ressuscitam: invadem cemitérios, abrem caixões e reviram cadáveres à procura de pretensos governadores, prefeitos, deputados. Em Imperatriz, os publicitários do engodo convenceram mais de 70 mil zumbis a reeleger um parlamentar que fora morto há 8 anos. No estado de São Paulo, reconduziram um ladrão à Câmara dos Deputados. Não é de se admirar se em outra parte do país tenham transformado uma melancia em senadora da república.

Estamos perdidos no meio do ninho das jibóias feudais. Agora até o presidente operário apóia a oportunista dinastia maranhense. Em nome do pai, do genro e da filha, vincula a sua imagem à de uma família que sempre desgovernou e oprimiu os seus governados. No Estado em que obteve mais de 75% dos votos válidos, o presidente Lula diverge de seus eleitores e cai nos encantos do canto de uma perversa sereia. Ao pedir votos para uma das oligarquias mais velhas e vorazes do país, corrobora para que o povo maranhense continue cumprindo o seu secular estatuto civil da pobreza.

Já me imagino sendo obrigado a trocar um miúdo descanso de domingo por um local de votação. Será um dia gorduroso e as ruas estarão entupidas de merda eleitoreira. Serei assediado por algum cabo eleitoral? Venderei meu voto por vinte, trinta reais? Pode ser que sim, pode ser que não. Certo é que aguardarei mais de trinta minutos para exercer o régio direito que me concedem. É certo também que poderei ser mais razoável e recusá-lo. Despido de minhas vestes, poderei urinar na urna eletrônica e, assomando detrás da cabina de votação, quebrá-la na cabeça do garçom da democracia mais próximo. Afinal, o Brasil está nas minhas mãos.

P.S.: Escrever esse texto me rendeu um assalto num Sáiber Café de São Luís. Espero que ao menos tenham gostado ( do texto, não do assalto ).

Sunday, May 14, 2006

Os olhos azuis da virgem grávida

comprar o pão
matinal

diário pretexto
para petrificar
o pau do padeiro

angélica medusa
visagem voraz

A língua lilás da virgem grávida

nem zenão
nem platão

dentro da boca
sutil entre dentes
o segredo do mundo

se anuncia

A buceta vermelha da virgem grávida

diante do espelho o
pêlo pubiano a
fábula confabula:

papai foi pra roça
mamãe já vai chegar

Revista "Eu sei Tudo". Rio. Anos 1950.

Monday, May 08, 2006

Manhã de domingo (cheirando a sábado) após acordar ( ainda perfumado) de um profundo sono-boicote

a
noite
saiu

se
diver
tiu

e não me chamou

Tuesday, May 02, 2006

Insônia

o
travesseiro
novamente
cheio de
gafanhotos

Monday, May 01, 2006

Saboroso Drope Prateado

a bala é disparada
e em disparada
rasga o tempo o espaço
o extenso o curto percurso
que a separa de meu corpo

una, solitária, perdida

mortífera bala sabor hortelã
a derreter-se sobre minha língua

Um leitor Censurado

São dezenove horas. Noite quente de sábado. Entro no Centro de Convenções de Imperatriz com uma cartolina na mão. Nela, uma frase sintáticamente correta. A cartolina está dobrada. O Centro de Convenções, lotado. Acontece a III Semana Imperatrizense do Livro.

Um segurança se aproxima. Diz, kafkianamente:

- Você não pode permanecer aqui dentro. Acompanhe-me!

- Por que? - pergunto.

- Porque não! - responde.

Ato contínuo, segura-me pelo braço e chama outros seguranças. Os comparsas atendem o chamado. Arrastam-me no meio da multidão, em direção à saída. Grito, reivindico meus direitos constitucionais. Um policial chega, visivelmente alterado. Diz que me quer fora dali. Reluto e a situação fica mais embaraçosa. Uma mulher interrompe a leitura de um pequeno livro para observar a cena.

Dois imortais da AIL me socorrem, solidários. Livram-me momentâneamente dos truculentos seguranças. Ambos são organizadores do evento e me convidam a acompanhá-los, são e salvo, até a saída. Percebo que é a única maneira de preservar minha integridade física. A outra integridade -a moral- já fora por demais agredida. Aceito o convite, desde que não seja escoltado por policiais ou seguranças. A liberdade corporal é um triunfo para qualquer homem.

Já do lado de fora, encontro um grupo de manifestantes. Estão insastifeitos com a possível presença do oligarca José Sarney no encerramento da Semana do Livro. Gritam, empunham faixas e cartazes. Junto-me a eles. Engrosso o coro dos humildes e, em poucos minutos, também estou gritando: "Fora, Sarney! Fora, Sarney! Fora, Sarney!".

A polícia aparece. Não permite a nossa entrada no Centro de Convenções. Ameaça bater e prender. Clima tenso. Um oficial vocifera impropérios, parte para a intimidação. Cheiro de sangue no ar. Os "marimbondos de fogo" do Estado estão armados e prontos para qualquer combate. A imprensa? A imprensa foi complacente.

O tempo passa e o senhor feudal não aparece. Decerto foi avisado sobre o que o esperava. Pior para os seus vassalos: num misto de angústia e esperança, ainda olham para os relógios. Mas ele não veio. Não virá. Foi embora. Até a polícia já reduziu seu efetivo. Agora, apenas dois guardas permanecem a nos observar. Um deles coça os testículos e, em seguida, utilizando a mesma mão, enxuga o suor do rosto.

São vinte e três horas. Calmaria merecida que uma boa tempestade sempre exige. A III Semana Imperatrizense do Livro chega ao final com um bigode a menos. Dentro do Centro de Converções, um homem ainda tem tempo para comprar, soberbamente, quatro livros. Ao preencher o cheque de sessenta reais, exita: com dois "ésses" ou com "ç"?
Do lado de fora, permaneço dignamente barrado no baile. E ostento no peito, também dignamente, um cartaz onde se lê: "LEITOR É PROIBIDO DE VISITAR A SEMANA DO LIVRO". O homem que comprara livros passar por mim. Olha-me e pergunta o porquê do cartaz.

- Meu visto de leitor está temporariamente cassado - respondo.
P.S.: o texto acima seria origináriamente publicado em O Progresso. Cheguei a conseguir espaço para tanto, na coluna Manifestação Cultural, do meu amigo F. Aldebarã. No dia da publicação, entretanto, o editor do jornal vetou o texto. E disse Sarney: "Se não existissem os políticos, não existiriam os meios de comunicação".