Eles não têm nenhuma vergonha na tara. Durante mais de um mês nos assediaram, duas vezes por dia, sussurrando promessas e prazeres dentro de cada rádio e televisão brasileiros. Na impossibilidade dos sedutores
showmícios, percorreram conventos, bares e associações de pais e mestres à cata de eleitores. Enquanto durou o grande assédio eleitoreiro, estes cipós estranguladores camuflaram-se em arremedos musicais e retratos santificados. Na ânsia de deter um mandato, chuparam sangue, esterco e suor. No
gran finale, ridentes eleitos, desabotoaram as calças, baixaram o zíper e nos obrigaram a engolir o líquido espesso da mentira.
No bizarro circo político brasileiro, os não menos bizarros marqueteiros surpreendem a cada pleito. Se outrora estes necrófilos apenas desenterravam defuntos, agora os ressuscitam: invadem cemitérios, abrem caixões e reviram cadáveres à procura de pretensos governadores, prefeitos, deputados. Em Imperatriz, os publicitários do engodo convenceram mais de 70 mil zumbis a reeleger um parlamentar que fora morto há 8 anos. No estado de São Paulo, reconduziram um ladrão à Câmara dos Deputados. Não é de se admirar se em outra parte do país tenham transformado uma melancia em senadora da república.
Estamos perdidos no meio do ninho das jibóias feudais. Agora até o presidente operário apóia a oportunista dinastia maranhense. Em nome do pai, do genro e da filha, vincula a sua imagem à de uma família que sempre desgovernou e oprimiu os seus governados. No Estado em que obteve mais de 75% dos votos válidos, o presidente Lula diverge de seus eleitores e cai nos encantos do canto de uma perversa sereia. Ao pedir votos para uma das oligarquias mais velhas e vorazes do país, corrobora para que o povo maranhense continue cumprindo o seu secular estatuto civil da pobreza.
Já me imagino sendo obrigado a trocar um miúdo descanso de domingo por um local de votação. Será um dia gorduroso e as ruas estarão entupidas de merda eleitoreira. Serei assediado por algum cabo eleitoral? Venderei meu voto por vinte, trinta reais? Pode ser que sim, pode ser que não. Certo é que aguardarei mais de trinta minutos para exercer o régio direito que me concedem. É certo também que poderei ser mais razoável e recusá-lo. Despido de minhas vestes, poderei urinar na urna eletrônica e, assomando detrás da cabina de votação, quebrá-la na cabeça do garçom da democracia mais próximo. Afinal, o Brasil está nas minhas mãos.
P.S.: Escrever esse texto me rendeu um assalto num Sáiber Café de São Luís. Espero que ao menos tenham gostado ( do texto, não do assalto ).